Resenha crítica do livro de José Lapponi

(estudo médico-crítico) - Dr. José Lapponi - Traduzido da 3a edição italiana (definitiva) por Almerindo Martins de Castro - (1a edição) - novembro de 1906

por Donna Crystal

RESENHA 

O livro HIPNOTISMO E ESPIRITISMO do DR. JOSÉ LAPPONI, com a primeira edição publicada em 1904, início do século vinte, confirma a tendência dos médicos-autores deste período em mostrar os fenômenos provocados pelos espíritos através dos médiuns, não-médiuns e até dos animais, analisando uma co-relação com os ataques epiléticos e hipnóticos histéricos.

Vale observar que a posição da igreja católica não era tão radical com relação ao tema, ou no mínimo menos intransigente, uma vez que o autor era protomédico de dois papas: Leão XIII e Pio X e, segundo nota do tradutor, de acordo com a resposta dada pelo autor ao redator do Giornale d’Itália, Sr. Eduardo Cecchi, “a obra foi lida e aprovada, antes da sua publicação, pelo Papa Leão XIII”.

 Inicia-se o livro tratando do assunto HIPNOTISMO, analisando a possibilidade de ter sido conhecido com o nome de magia pelos antigos, não ignorado pelos Medas, Caldeus, Brâmanes da Índia e pelos sacerdotes do antigo Egito. Enfim, este primeiro capítulo abrange de uma forma rápida todas (ou quase todas) as situações, em épocas remotas até a atualidade (quando foi escrito o livro), em que se empregava a hipnose.

 Como não podia ser diferente, chega a Mesmer com a sua doutrina sobre Magnetismo animal - doutrina do mesmerismo -, ao Marquês de Puysegur (discípulo de Mesmer) que descobriu o sonambulismo artificial, a Petetin de Lion que descobriu a Catalepsia artificial e a Jacob Braid, que reuniu suas observações sob os nomes de Neuro-Hipnologia, Sono Nervoso e do Hipnotismo.

 Mas, segundo posiciona o autor, “estava reservado a Charcot, Bernheim, Liebeault, Liegeois e às suas escolas, dar aos fatos do Hipnotismo aquele desenvolvimento e base cientifica pela qual são hoje aceitos entre os doutos, e de demonstrar que, no fundo e nas partes verdadeiramente científicas, Mesmerismo, Sonambulismo ou Catalepsia Artificial, Sono nervoso, Braidismo, Hipnotismo, são tudo a mesma coisa ou parte da mesma coisa”.

 A seguir, discorre longamente sobre as duas variedades do hipnotismo, o “hipnotismo provocado e o espontâneo”, descrevendo passo a passo todos os estágios em que se apresentam, mostrando as transformações físicas e comportamentais dos indivíduos em estado hipnótico. Passa do sonambulismo, catalepsia, letargo, polarização até a transposição dos sentidos, esmiuçando seus desdobramentos e conseqüências, numa ordem científica deveras interessante.

 Quando adentra no assunto “ESPIRITISMO”, voltado ao fenômeno das manifestações mediúnicas, vamos encontrar relatos que deslizam desde levantamento de objetos, materialização dos espíritos, comunicação com toques, psicografia, fotografia, transporte, levitação, até predições, aparições e incorporações. Enfim, apresenta em detalhes, experiências específicas sobre todas as formas de comunicação espírita.

 Como o autor apresenta o tema de uma forma responsável e respeitosa, com estudos embasados em parte nas suas observações pessoais e em parte na análise minuciosa de fatos vistos, constatados e referidos por profissionais competentíssimos e de reputação incontestável, vale conferir a forma e os exemplos com que ele apresenta e explica cada fenômeno, considerando, ainda, que para cada caso o tradutor indica nome de livros e autores para quem se interessar em ampliar seus conhecimentos.

 Quanto aos céticos/leigos que na sua grande maioria credencia os fenômenos espíritas ao charlatanismo, deixa bem claro o seu posicionamento: “É notável o fato de que os mais convencidos cépticos a respeito do Espiritismo, depois de haverem assistido a alguma sessão, dirigida com seriedade e bons resultados, se tornem de pronto seus mais ardentes adeptos como diremos mais adiante. Quem não sabe prestar fé ao testemunho dos outros, deve, contudo, crer no que pode constatar por si mesmo, precisa ceder à evidência das provas quando elas caem ante nossos sentidos”. Ou, “Singular humilhação infligida pela justiça divina: os que mais obstinadamente combatem o sobrenatural, em coisas de religião, se encontram entre os primeiros a reconhecê-lo nos fenômenos do Espiritismo”.

 E não se poupa ao relacionar nomes de profissionais e suas eminentes posições que atestaram sua crença no ESPIRITISMO, após constatarem a veracidade das manifestações dos fenômenos espíritas. Dentre muito deles, chama especial atenção à conclusão dos estudos feitos pelo físico inglês William Crookes, sem dúvida vale a pena ser lida. (páginas 140 até 1430).

 Hoje, com a decodificação do espiritismo segundo ALLAN KARDEC, o estudo da doutrina espírita cresceu em conhecimento e posicionamento, deixando de exibir seus fenômenos publicamente e fazendo seus trabalhos de forma séria e reservada.

 As manifestações públicas que ainda acontecem são credibilizadas ao movimento espiritualista e não espiritista.

 Considerando a época em que foi escrito, vale, e muito, a leitura deste livro, assim como do seu homônimo, escrito pelo professor César Lombroso. São dois livros ricos em detalhes quanto às manifestações mediúnicas e um bom material sobre hipnotismo.

São trabalhos de profissionais gabaritados que, independente das suas posições sociais, e correndo o risco de caírem na classificação de charlatões, não se omitiram ou se acovardaram diante das suas descobertas, deixando para nós, não só o resultado dos seus estudos, mas as suas conclusões pessoais quanto aos que se fecham e dificultam, por pura ignorância dos fatos, a transparência dos resultados  cientificamente comprovados.

 “A quem, pois, as nossas conclusões não agradem, faremos observar: não somos nós que a queremos impor a quem quer que seja, e sim a lógica que, examinados e joeirados os fatos, as impõe, em primeiro lugar a nós, e depois a qualquer pessoa que não queira, deliberadamente, fechar os olhos à luz da Verdade.” – Dr. José Lapponi.

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Paulo,

O livro do Prof. Lapponi é bem dissertativo e foi escrito com o objetivo de esclarecer os que confundiam os “fatos de um com os exclusivamente próprios do outro”. Portanto, quero deixar bem claro que tanto a correlação, convergência ou divergência são da minha própria interpretação, pois o autor se limita a explicar os dois temas separadamente e, quando faz a sua análise, deixa claro: “Fora da analogia que os fatos do Hipnotismo e do Espiritismo reciprocamente apresentam, e por motivo de seu cunho admirável, os fenômenos hipnóticos, ao meu ver, diferem demais dos fenômenos espiritistas”. (Pág. 149.)

“As surpresas das maravilhas do Espiritismo podem também, em indivíduo predisposto, provocar um estado hipnótico .” (Pág. 61)

“...Com a união do vinho com a água, nós nos julgamos autorizados, no máximo, a dizer que formamos um vinho aguado ou uma água vinosa, - assim, ao observar que o hipnotismo algumas vezes se une com o Espiritismo, poderemos quando muito, concluir pela existência de uma forma híbrida de Hipnotismo espiritista ou de Espiritismo hipnótico, que com nome abreviado, denominamos de – Hipno-es-piritismo, no qual os fenômenos distintos do hipnotismo e do Espiritismo se unem conjuntamente, não em virtude de identidade da sua natureza íntima, e sim apenas em virtude de uma aliança acidental e precária.” (Pág. 151)

No meu entendimento, a correlação está em que, tanto no hipnotismo quanto no espiritismo, se verifica a capacidade do hipnótico e do médium em manifestar os fenômenos da clarividência e da telepatia.

Verifiquei que as convergências são muitas, as reações físicas, a capacidade lingüística dos iletrados, a letargia, os ataques, premonições, clarividência, a prostração dos indivíduos após as crises/ manifestações, etc. Enfim, tudo ou quase tudo se assemelha.

Exemplos:

Hipnotismo “Contam que indivíduos iletrados, em estado de sonambulismo, falaram em idiomas deles absolutamente desconhecidos em condições normais. O fato deve ser acolhido com todas as maiores reservas. E, pelo que sabemos a respeito, diremos oportunamente de que modo – no bem conhecido caso único – as coisas realmente ocorreram”. (Pág. 80)

Espiritismo “Não importa que o médium, ou quem em sua feita se incumba de substituí-lo, seja iletrado: escreverá de igual modo. Mesmo assim, escreverá corrente e corretamente, mesmo em idioma desconhecido, sobre assuntos dos quais não conheça nem os mais elementares rudimentos, e com caracteres caligráficos totalmente diversos uns dos outros, segundo diferentes sejam os Espíritos cujas respostas foram ditadas.” (Pág. 107)

A divergência está no fato de que o sonambulismo é provocado por fatores externos e o Espiritismo é espontâneo. - “De fato, enquanto no Hipnotismo os fenômenos são provocados por influência que outro exercita sobre o paciente em experiência, opostamente no Espiritismo, é o médium quem, de certo modo, suscita, em torno de si, as maravilhas que conhecemos. Pelo que, enquanto num caso o hipnotizado é o paciente, no outro caso, o médium é o próprio e verdadeiro agente”. (Pág. 149)

Não posso deixar de lembrar que o Prof. Lapponi tinha sua formação religiosa com base na Igreja Católica e Apostólica e ainda foi protomédico de dois papas no vaticano. Portanto, apesar de defender a seriedade dos estudos e a  veracidade dos fatos apresentados quanto ao Hipnotismo e ao Espiritismo, sua conclusão é negativamente radical tanto em relação a um quanto ao outro “Na vida prática, Hipnotismo e Espiritismo apresentam graves perigos e danos, físicos e morais, sociais e individuais. Estes perigos e estes danos são muito  maiores no Espiritismo e no Hipno-Espiritismo do que no genuíno Hipnotismo.

O Hipnotismo tem algum lado útil, o que falta de todo no Espiritismo”.

“O Hipnotismo é de considerar-se reprovável e imoral, e por isso, de interditar-se severíssimamente, toda vez que se pratica no intuito de curiosidade ou de divertimento e sem determinadas cautelas. Mas algumas vezes é admissível, e se pode aplicar...”

“O Espiritismo é sempre perigoso, danoso, imoral, reprovável, e deve ser condenado e proibido severíssimamente, sem restrições, em todos os seus graus, em todas as suas formas e sob todas as suas possíveis manifestações. Pode-se desculpar o estudo unicamente em casos especialíssimos, espontâneos ou provocados, sob dadas condições, com as necessárias precauções e por ação de pessoas reconhecidas competentes...”(Págs. 218/219)”

Podemos, também, considerar que sua conclusão tinha o objetivo de inibir a ação dos charlatões ou dos aproveitadores/exibicionistas que poderiam em larga escala, utilizar os fenômenos publicamente, visando tão somente tirar proveito em causa própria.

Não sei se a religião foi criada, mas por certo é usada para colocar freios nas tendências negativas de ordem moral dos indivíduos. Talvez por esta razão ela a empregou. (?)

Escreve o tradutor (parte): “Quanto à parte filosófica e doutrinária, ele preferiu ficar com a sua religião católica. Nada mais razoável, pois que o eminente sábio não foi além da partes básica do Espiritismo, a fenomenológica. Se prosseguisse com a mesma sinceridade de propósitos nesta obra manifestados por ele, certamente encontraria, mais à frente, a parte filosófica e, por fim, atingiria o ápice: a parte moral-religiosa. E isso se daria, se o eminente médico não desencarnasse logo após a preparação da 3a edição desta sua obra, desencarnação, aliás, que lhe foi anunciada, três meses antes, por um dos seus doentes”.

Pessoalmente, sem considerar a Doutrina Espírita, olhando somente os fatos apresentados, fico com a dúvida se o paciente em crise e hipnotizado poderia  estar em manifestação mediúnica ou se o individuo/médium em transe, não teria a capacidade de hipnotizar todos os presentes e apresentar por sugestão os fenômenos descritos.

Para finalizar, devo dizer que tem muitos pontos deste livro que eu gostaria das suas explicações. E que os dois temas são ricos em material para debate.

Interessante observar estas comparações entre  as ocorrências dos fenômenos espíritas,  os ataques epiléticos e hipnóticos histéricos, pois até o final do livro não se chega (na minha opinião), a nenhum posicionamento científico clareando sobre o porquê desta vulnerabilidade.

Persiste a dúvida (para mim), se a doença deixando o indivíduo fragilizado propicia a comunicação dos espíritos ou se, ao contrário, a comunicação dos espíritos através deste, propicia a doença. Ou ainda, se esta comunicação acontece numa fase X da doença, fazendo com que o paciente com o seu estado mental alterado, capte as informações através do pensamento de pessoas vivas, não importando em que distâncias estas se encontrem e se comportem como se fosse o próprio ser do além túmulo.

Cida Borges / Paulo Madjarof Filho