História da Hipnose

por Paulo Madjarof Filho

A palavra “hipnose”, introduzida no século passado por James Braid, provém do grego Hypnos, que na mitologia helênica significa deus do sono, chamado Somnus pelos romanos. Hypnos quer dizer sono, mas os estados hipnóticos não são obrigatoriamente tranqüilos e semelhantes ao sono. Braid, após propor o termo hipnose, observou que a mesma distinguia-se de um estado de sono, porém o termo já havia se consagrado. Nasceu com Braid o primeiro esboço da neurofisiologia da hipnose. Na realidade, há indícios do uso da hipnose desde tempos muito remotos, onde eram utilizadas induções hipnóticas nas várias civilizações, encontrando-se a mesma fenomenologia em muitas partes do mundo. Os hebreus, os astecas, os índios americanos chippewas e os araucanos do sul do Chile sabiam induzir o “sono mágico” e outras formas de transes grupais e individuais. Podiam produzir analgesia, gravar sugestões pós-hipnóticas e curar dores físicas ou psicossomáticas. Chiron induzia o estado de transe em seu grande discípulo Esculápio. O “sono mágico” era usado tanto nos Templos do Sono egípcios, como individualmente por sibilas e oráculos. Andrade Faria, relata que num baixo relevo encontrado num sarcófago de Tebas, nota-se um sacerdote em pleno ato de indução hipnótica de um paciente. Os egípcios, os caldeus e os hindus realizavam induções através de rituais mágico-religiosos há milênios. Paracelso no século XVI, utilizava o imã em muitos de seus trabalhos de cura, sendo considerado um dos precursores do Magnetismo Pessoal e do Mesmerismo. Podemos afirmar que a hipnose pode ser vista como “antes de Mesmer” e “depois de Mesmer”, embora o termo hipnose só tenha surgido com James Braid.

A Era Científica da hipnose começou com o alemão Franz Friedrich Anton Mesmer, que em 1775, diplomou-se em medicina onde apresentou sua tese de formatura  “De planetarium influxu”, inspirada em idéias filosóficas e teosóficas do século XVI e XVII, como por exemplo as de Paracelso. Defendia em sua tese  que  corpos celestes  influenciavam na cura de doenças. Existiria um fluido ou energia universal interligando os corpos e os astros, sendo captado e emitido pelo ferro magnético. Aos poucos, Mesmer percebe que o ferro imantado não é necessário, pois parecia que ele mesmo podia emitir essa força magnética curadora recebida dos astros, a qual então ele passa a chamar de “magnetismo humano”, que podia ser transmitido em cadeia para outras pessoas. O sensacionalismo e as perseguições, não permitiram a Mesmer introduzir suas descobertas nas universidades. Mudou-se para Paris onde todavia se repetem os sucessos espetaculares e o insucesso científico. A repercussão das curas alcançada por Mesmer, leva o Rei da França, Luís XVI, a nomear uma comissão da Sociedade Real de Medicina e outra da Academia de Ciências para analisar métodos tão pouco ortodoxos. Foram convidados os maiores expoentes da cultura científica francesa, entre os quais Lavoisier, Benjamin Franklin, Jussieu e Guillotin. Apenas Jussieu não considera as curas maravilhosas como resultados da sugestão.

A técnica do mesmerismo chega a universidade inglesa  em 1837,  trazida pelo médico John Elliotson, que passou a lecionar o mesmerismo no University College Hospital, chegando inclusive, a realizar cirurgias sob anestesia hipnótica. Elliotson foi duramente criticado o que o levou a abandonar a universidade, fundando em Londres o “Mesmeric Hospital”. Defendeu-se das criticas afirmando que a universidade existe para a pesquisa da verdade que é muito mais importante do que o interesse de uma escola. Elliotson destacou-se na pesquisa científica com trabalhos sobre o iodeto de potássio e por ter introduzido na prática o estetoscópio de Laënnec na medicina.

Outra figura importante na história da hipnose foi Emile Coué, especialmente pelo enfoque da sugestão. Professor em Nancy, aluno de Liébeault, afirma que a sugestão age, não sobre a vontade, mas sobre a imaginação. Afirma que quando a vontade e a imaginação entram em conflito, a imaginação vence sempre. Diz ainda que imaginação pode ser educada. Coué, até certo ponto, lança as bases para a teoria da sugestopédia. Destaca a importância do consciente no processo da auto-sugestão afirmando que para que uma auto-sugestão possa agir sobre o inconsciente, deve ser formulada e emitida pelo consciente.

Milton Erickson representa um novo e importante capítulo na história da hipnose, especialmente pelo modelo desenvolvido desse recurso para aplicação na psicoterapia. Sob o ponto de vista tradicional, a hipnose caminha “do exterior para o interior do paciente”, enquanto no modelo ercksoniano surge de “dentro para fora”, como um mérito do paciente, e não do terapeuta. Ainda menino, Erickson sofreu de poliomielite tão severamente que foi desenganado por um médico que asseverou a iminência de sua morte. Parece que o fato de ter ouvido isso do médico lhe ajudou a sobreviver ao episódio, entretanto permaneceu debilitado e passou longo período de tempo em uma cadeira de rodas. A mesma determinação revelada em sua infância o conduziu a conquista dos graus em medicina e psicologia. Como psiquiatra trabalhou em várias instituições e depois como professor de psiquiatria. Fundou e presidiu a Sociedade Americana de Hipnose Clínica. Posteriormente, como a fama se espalhou, foi levado para a realização de conferências e seminários sobre hipnoterapia e psicoterapia, amealhando reconhecimento e admiração.  Erickson teve uma mente forte, flexível e inteligente, fundamentada em um profundo e inabalável bom senso. Para Rosen, a sua personalidade era saudável, não demonstrando nenhuma característica obsessiva ou qualidade neurótica que muitos dos fundadores de escolas de psicoterapia parecem ter exibido. Para Zieg, algumas palavras chaves que descrevem as qualidades que Erickson trouxe a hipnoterapia são: informalidade, flexibilidade, holismo e não-dogmatismo. Segundo Zieg, ele não se vestiu com uma aura de autoridade ou de mistério como alguns hipnotistas que o precederam, e nem usou rotinas de induções fixas. Algumas sessões poderiam parecer freqüentemente superficial por consistir em pequenas histórias e piadas. Afirma Zieg, que Erickson era flexível e há poucos sinais que tenha usado a mesma aproximação duas vezes. Adaptava a aproximação para o cliente de modo particular de acordo com a personalidade do cliente, como a experiência, idade, capacidades e condição física e social, valorizando os recursos como facilitador para as mudanças desejadas. Mostra-se atento a tudo que existia na vida do paciente dentro e fora do consultório, fazendo uso deste recurso como parte do processo de mudança. Erickson não demonstrou qualquer base dogmática para as aproximações. Ensinou através de exemplos, por analogias e metáforas, não propondo qualquer teoria global. O modelo terapêutico através da hipnose proposto por Erickson, difundiu-se e difunde-se largamente como pratica corrente nos consultórios e clínicas médicas e psicológicas.

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