Hipnose e obesidade

por Paulo Madjarof Filho

Resumo

A hipnose tem se mostrado um eficiente recurso auxiliar terapêutico nas diferentes áreas da saúde. Este trabalho apresenta as observações e os resultados sobre as mudanças nos hábitos alimentares de um paciente do sexo feminino, após a realização de quinze sessões de hipnose sendo as dez primeiras com freqüência diária e as cinco restantes com semanais. Utilizou-se como método de hipnose a técnica Ericksoniana de levitação braquial atingindo-se o nível sonambúlico de hipnose, conforme a Escala Torres Norry - modificada por Passos. Por solicitação da paciente, enfatizou-se durante os transes hipnóticos a ampliação de seu autocontrole quanto aos excessos alimentares, especialmente em relação aos doces. A observação e o acompanhamento se deram pelos relatos das modificações dos hábitos alimentares experimentado pela paciente e, também, pelos registros de controle de aferição de seu peso a cada sessão. Observou-se lenta, porém progressiva, diminuição de peso a partir da quinta sessão. Os resultados apresentados mostraram-se especialmente significativos para este caso, dada a susceptibilidade hipnótica da paciente e a respondência ao processo terapêutico, sugerindo a relação do controle da ansiedade como um fator de regulação alimentar. 


1. Introdução       

1.1. Obesidade

1.1.1. Conceitos de Obesidade

1.2. Hipnose

2. Desenvolvimento

2.1. A História de Ana

2.2. Proposta Terapêutica

2.3. Análise das Sessões

2.4. Análise de Resultados

3. Bibliografias

Anexo I - Teste de Susceptibilidade de Entrecruzamento das Mãos

Anexo II – Procedimento de Levitação de Braço

Anexo III - Escala de Aprofundamento Hipnótico


1. Introdução       

O entendimento do comportamento alimentar sob o enfoque psicossomático, cujo os distúrbios de ordem psíquica e emocional interferem no equilíbrio metabólico, foi justificado pelo uso da hipnose com a finalidade de redução de peso, sobretudo pelo equilíbrio e  o controle no ato de comer.

A hipnoterapia foi orientada especialmente para uma paciente do sexo feminino de 40 anos de idade cuja respondência à hipnose se deu em nível sonambúlico. Realizamos sugestões específicas como: a aprendizagem do auto-relaxamento (como fator diminuidor de ansiedade), crescente autocontrole, encorajamento da pratica de exercícios físicos, fortalecimento de auto-estima e motivação, que segundo Fonseca, durante o transe hipnótico, age despertando ou aumentando a vontade de caminhar em uma dada direção (Fonseca, 1998).

A paciente em sua primeira visita ao consultório, falou da insatisfação com sua auto-imagem e de seu desejo de emagrecer. Disse ainda que ao se sentir ansiosa descontrolava-se e comia de modo compulsivo. Identificou a origem de sua ansiedade na ociosidade de seu dia-a-dia, relacionando a um sentimento de vazio e solidão.

A utilização da hipnose como instrumento rebaixador de ansiedade foi relatado por Fonseca (1998) em sua dissertação de mestrado e não se mostrava para nós, nas questões de obesidade e autocontrole, como algo novo, no entanto, desta feita, optamos pelo acompanhamento e o registro científico/metodológico.

Após a anamnése e a verificação da susceptibilidade hipnótica, propusemos à paciente a voluntariedade para este trabalho metodológico, que foi prontamente aceito. Providenciamos os recursos necessários e agendamos a primeira sessão, conforme relataremos adiante.

Um levantamento realizado na BIREME[1] apontou 67 trabalhos realizados relacionando hipnose e obesidade. O desenvolvimento de pesquisas com essa finalidade investigativa corroboram com a premissa das causas psicossomáticas em alguns casos de obesidade, como também valorizam a hipnose como instrumento terapêutico.

No trabalho com portadores de distúrbios digestivos, Alexander concluiu que os sentimentos influenciam diretamente as funções corporais, sendo que o contrário também é observado, ou seja, mudanças corporais influenciando a parte psíquica (apud Martins, 1986).

Sobre a ansiedade, Spielberger descreve ansiedade como traço e estado de personalidade, referindo-se a última como uma tensão de manifestação temporária que deixa de ocorrer com o desaparecimento dos fatores desencadeantes (Spielberger, 1981).

Este trabalho nos permitiu confirmar a eficácia da hipnose no tratamento de distúrbios psicossomáticos através do acompanhamento e da análise dos resultados de uma paciente, cuja resposta ao processo terapêutico mostrou-se satisfatória, ensejando a realização de novas pesquisas para um grupo ampliado de sujeitos.     

1.1. Obesidade

Segundo Martins, os problemas de imagem corporal, mais precisamente a discrepância entre a auto-imagem e a imagem ideal, bem como os estereótipos sociais sobre a beleza feminina, determina uma baixa auto-estima e uma avaliação de si próprio distorcida (Martins, 1986).

Numa abordagem social da obesidade na sociedade contemporânea, Sichieri aponta que não se trata apenas do homem doente, mas também o excluído do imaginário popular de uma estética socializada. Ainda, que a prevalência crescente reforça, em nossos dias, toda uma popularização banalizada da própria obesidade. Pondera Sichieri que ao obeso e aos que têm medo de se tornarem obesos, dirige-se toda uma indústria de alimentos, equipamentos, vestuário, que tenta reordenar hábitos, independente da apreensão da causalidade da obesidade (Sichieri, 1998).

Em particular, no tratamento da obesidade, não há padrões universalmente aceitos que definam o sucesso terapêutico, a começar pela própria dificuldade de seu entendimento científico e a definição de gordura em excesso no corpo humano, e o modo de medi-la.

Segundo Sichieri, em estudos laboratoriais, para medidas individuais, a densiometria é a medida de escolha para a avaliação de gordura, interessando especialmente o percentual de gordura, e não a gordura total. Sichieri ainda ressalta a importância do percentual de gordura pela relativização do padrão fenotípico do que é ser obeso (Sichieri, 1998).

Segundo Gasparini, a obesidade por hiperfagia é caracterizada pelos obesos que comem muito, em quantidade ou em qualidade (alimentos muito calóricos - neste grupo estão incluídos os populares beliscadores). Nem sempre a hiperfagia depende apenas de um autocontrole. Além dos mecanismos psíquicos envolvidos como a depressão, a ansiedade, a angustia, e a carência afetiva, estão sendo cada vez mais descritas alterações orgânicas condicionantes de hiperfagia como as alterações no centro da saciedade, hipotâlamicas e alterações de alguns hormônios gastrointestinais (Gasparini, 2000).

Torna-se necessário então definir o percentual que caracterizaria a obesidade, e neste caso, o índice de massa corporal (IMC), pela facilidade da medida e sua difusão, apresentou-se favoravelmente às intenções de nosso trabalho. O IMC é a relação de peso (Kg) dividido pela altura (m²) e, segundo Sichieri, têm alta correlação com as medidas de gordura corpórea (Sichieri et al., 1993).

A Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu como sobrepeso valores de IMC acima de 25 Kg/m² (OMS, 1995).

No Brasil, em levantamento do Ministério da Saúde referente ao ano de 1993, demonstrou-se que cerca de 15% da população adulta já se encontra com sobrepeso, e 6,8% com obesidade (Sichieri, 1998).

Estudos realizados sobre a obesidade na população brasileira apontam uma relevante diminuição da prevalência da desnutrição nos últimos vinte anos, em comparação ao notável aumento dos casos de obesidade (Sichieri., 1998).

1.1.1. Conceitos de Obesidade

Segundo Paiva, um dos principais critérios para definição de obesidade corresponde ao excesso de gordura corpórea (Paiva, 1966).

Para Sichieri a obesidade caracteriza-se pelo desequilíbrio entre consumo alimentar e gasto energético. Sempre que o consumo é maior do que o gasto ocorre depósito na forma de gordura e o excesso de gordura caracterizaria a obesidade (Sichieri, 1998)

Outra referencia é a relação da obesidade com o excesso de peso corporal (Amaro et al., 1979) 

De acordo com as tabelas da Metropolitan Insurance Life Company (Nova York, EUA), uma pessoa é considerada obesa quando seu peso for no mínimo 20% maior do que o considerado ideal para sua altura (Gasparini, 2000).

Outra forma de classificar a obesidade é pelo peso, que reflete, não necessariamente (a musculatura também pesa), o excesso de gordura. Os critérios utilizados para medir o tecido adiposo são variados. Podemos citar a correlação do peso/altura (tabela do Metropolitan Life InsuranceCompany), medidas de espessura de prega cutânea e o índice de Quetelet ou Índice de Massa corpórea (IMC).

1.2. Hipnose

A hipnose, especialmente no Brasil, sofreu durante muito tempo ações discriminatórias dos meios científicos e associações de classe, salvo o trabalho de homens notáveis, ícones da ciência descomprometida, permanece cada vez mais viva em nossos dias.

Erickson em uma definição operacional, propõe a visão da hipnose como uma susceptibilidade ampliada para a sugestão, tendo como efeito uma alteração das capacidades sensoriais e motoras para iniciar um comportamento apropriado. Ainda, descreve a sugestibilidade como uma capacidade ou a indicação da capacidade de uma pessoa de responder idéias (Erickson et al., 1998).

Enfatiza Erickson que muitas tentativas foram feitas na intenção de definir a hipnose, não apenas quantos aos fenômenos envolvidos nela, mas também em termos de seus possíveis mecanismos causais, sem, no entanto, até agora, haver nenhuma definição que responda satisfatoriamente as perguntas levantadas (Erickson et al., 1998).

Segundo Badra, a hipnose, em si, não é terapia. Decisiva é a sugestão terapêutica que a acompanha, de modo claro ou implícito. Confere acesso mais ágil ao inconsciente, facilita o manejo dos seus processos e a abordagem dos seus conteúdos (Badra, 1987). Dá-se, assim, uma potencialização da técnica psicoterápica usada, que age mais direta e eficientemente. Os estados de consciência que se apresentam durante o transe também podem surgir fora deste por qualquer outra causa natural. São como efeitos colaterais, possíveis em qualquer tratamento e o profissional deve estar capacitado a resolvê-los.

Francisco Fajardo em seu Tratado de Hypnotismo, quando faz referência à história da hipnose no Brasil, cita o trabalho de Mr. Rostan, cuja observação demonstrou que as pessoas freqüentemente magnetizadas tendem a emagrecer sensivelmente, justificando que a excitação nervosa impressiona profundamente a nutrição (Fajardo, 1896).

Em nossa experiência constatamos que o uso da hipnose, especificamente na psicoterapia voltada ao controle alimentar, permitiu a ampliação e a potencialização dos recursos individuais na direção dos objetivos do cliente, tornando-os acessíveis.

2. Desenvolvimento

2.1. A História de Ana

A intenção de mensurar a ação da hipnose em distúrbios de origem psicossomáticos está presente em nossa conduta profissional e invariavelmente temos obtido resultados motivadores, norteando nossa percepção na direção metodológica/científica.

O caso desta paciente, que em nosso relato daqui por diante trataremos por Ana, mostrou-se interessante por diversos motivos. O primeiro e talvez principal motivo, foi o fato de Ana nos procurar com uma queixa direta e objetiva, quanto a sua intenção de recuperar sua auto-estima através de sua auto-imagem, em sua percepção, um tanto prejudicada. Nos chegou por indicação de uma amiga que obteve sucesso com o processo terapêutico em hipnose.

Ana mostrou-se uma pessoa esclarecida e ciente de seus potenciais, outro motivo ancorador de nossa terapêutica, especialmente quando reconheceu ter alcançado seu intento de emagrecer em outra ocasião, quando alguém que muito estimava lhe fez apontamentos degradantes em relação à sua aparência física. Contou que nessa ocasião, período que estava separada e morava só com seu filho, lhe foi dito que se tornara uma mulher gorda e desleixada, e que seria incapaz de transformar tal situação. Disse que a princípio chorou muito, mas só até, algumas horas depois, tomar consciência que podia sim transformar a situação, conforme o fez. Emagreceu 8 quilos em um único mês, com a ressalva de que não sofreu para fazê-lo, ao contrário, sentindo-se vitoriosa. Reconhece-se incapaz hoje, sozinha, de encontrar a força necessária para repetir a façanha.

Embora esta situação esteja se repetindo, ou seja, engordar e depois desejar emagrecer, conta Ana que o seu peso é estável e que esses momentos são momentos isolados. Reconhece que o aumento de peso no primeiro caso deveu-se à instabilidade emocional vivida por sua condição de separada conjugalmente e as novas necessidades que se apresentavam em sua vida.

No momento presente as circunstâncias mostraram-se bastantes diferentes já que o fato de engordar está ligado a outros fatores. Relata que se afastou do serviço público onde exercia o cargo de professora do ciclo básico de ensino. O afastamento justificou-se pela necessidade de cuidar de seu filho mais novo que apresentava problemas de saúde, exigindo-lhe dedicação. Resolveu, por decisão própria desligar-se do trabalho para dedicar-se exclusivamente à sua família.

Pressentiu o equívoco de sua decisão alguns meses depois quando percebeu que o tempo que antes lhe faltara para as tarefas, agora sobrava em demasia. Percebia-se ansiosa pelas manhãs, quando os filhos iam à escola e o marido ao trabalho, e comia de modo compulsivo, especialmente biscoitos e chocolates acompanhado de leite.

Ana é uma mulher de 40 anos cuja aparência assemelha-se a uma jovem de 30, apesar de seus dois casamentos e três filhos. Casou-se pela primeira vez com 18 anos quando teve o seu primeiro filho, permanecendo casada por 8 anos com seu primeiro marido. Ficou menos de dois anos separada e ainda divorciava-se quando conheceu o seu atual marido, com quem teve mais dois filhos.

Demonstra satisfação em falar de seu segundo casamento, fato não observado em relação ao seu primeiro relacionamento matrimonial. Em suas poucas referências a este relacionamento, demonstrou certo desconforto, definindo sua relação como resultado de um desejo familiar e a sua vulnerabilidade a esta interferência. Disse que sequer havia namorado ou mesmo trocado intimidades antes do casamento, tornando sua núpcias um trauma. Reconhece hoje que ambos, ela e seu ex-marido foram vítimas do despreparo e de certa ingenuidade.

Ana conta sobre a importância de seu segundo casamento no desenvolvimento de sua maturidade e a menção ao seu segundo marido é, invariavelmente, acompanhada de um sorriso. O descreve de um modo positivo, como uma pessoa atenciosa e dedicada, especialmente aos filhos, mostrando-se um ótimo pai. Diz que trata os filhos de um modo indiscriminado e que procura atender-lhes sempre que pode, o mesmo fazendo em relação a ela própria. Este relacionamento completou dez anos no dia em que compareceu a entrevista.

Ana justifica a sua busca pela terapia e o seu desejo de emagrecer ao fato de querer mostrar-se atraente ao seu marido, que é cinco anos mais jovem que ela. Refere-se positivamente a sua vida intima e se diz sexualmente realizada. Disse que o marido jamais realizou qualquer cobrança para que emagrecesse, porém, jocosamente, nota o seu velado interesse, especialmente pela televisão, nas mulheres de aparência esguia.

Falou dos filhos, cada um deles, apontando suas qualidades, numa clara demonstração de seu afeto maternal.

2.2. Proposta Terapêutica

Após a anamnése, realizamos um teste de susceptibilidade hipnótica do entrecruzamento de mãos (Anexo I) ao qual respondeu positivamente. Orientamos Ana, a partir do teste, para um aprofundamento do transe hipnótico, cuja respondência mostrou-se muito satisfatória. Identificamos pela Escala de Aprofundamento Hipnótico de Torres Norry (Anexo III), tratar-se de um bom sujet[2] hipnótico. Ana experimentava um nível profundo de hipnose.

Considerando as diversas variáveis que ao nosso ver mostravam-se favoráveis para uma descrição metodológica/científica do caso, propusemos a Ana a gratuidade de seu atendimento pela cooperação em nosso trabalho, obtendo sua pronta adesão.

Solicitamos que aguardasse nosso contato telefônico quando então estaríamos agendando as sessões psicoterápicas, após um minucioso estudo do procedimento terapêutico. Assim o fizemos, três dias após a nossa entrevista.

Na primeira sessão terapêutica ocupamo-nos em destrinçar nossa conduta metodológica. Propusemos a freqüência diária durante dez dias consecutivos, excetuando o domingo, e cinco sessões subseqüentes com freqüência semanal.

A nossa opção ao determinar o numero e a ordem de sessões, se deu especialmente através da análise do relato da paciente baseado em sua primeira e brusca experiência de emagrecimento, onde o apontamento sobre o seu estado de aparência, estimulou sua reação quase instantânea para a reversão do quadro. Para Pavlov, a palavra, graças a toda vida anterior do homem adulto, está ligada com todos os estímulos exteriores que chegam ao cérebro, podendo provocar as reações do organismo que estão condicionadas por esse estímulo (Apud Badra, 1987).

Baseamo-nos também nos princípios psicológicos indicado por Erickson, que estabelece que quando a atenção está espontaneamente concentrada numa idéia, essa idéia tende a realizar-se (Erickson et al., 1998). O segundo princípio é baseado na lei de efeito reverso de Emilie Coué, segundo a qual, quando a vontade e  a imaginação entram em conflito, a imaginação sempre ganha (Coué, 1957).

Neste caso, planejamos utilizar a própria imagem presente na história de Ana cujo resultado foi transformador. Gorda e desleixada era algo que realmente não queria representar para as pessoas que estimava, e muito menos incompetente para transformar as situações adversas.

Erickson cita ainda o terceiro princípio, a lei do efeito dominante, onde aprendemos que ancorar uma emoção a uma sugestão, torna a sugestão mais efetiva, reforçada pela freqüência (Erickson et al., 1998).

Propusemos a Ana o controle de seu peso a cada sessão através da pesagem e o controle de medidas. Providenciamos uma balança portátil digital e estabelecemos a tomada de peso no início de cada sessão. Também uma fita métrica onde pudemos determinar sua altura, procedimento realizado exclusivamente na primeira sessão. A imagem da balança foi utilizada como um fator motivador para o atendimento do objetivo.

Utilizamos como referencia o cálculo do índice de massa corporal (IMC) onde o peso é dividido pela altura elevado ao quadrado, segundo padrão internacional da OMS.

Enfatizamos à paciente, a importância na observação dos procedimentos que, mais uma vez, mostrou-se colaborativa, como o foi durante todo o processo psicoterápico.

2.3. Análise das Sessões

De acordo com nossa proposta terapêutica e enfoque científico, dedicamos os primeiros vinte minutos de cada sessão de uma hora de duração, para as manifestações de Ana que, invariavelmente, giraram em  torno de suas observações sobre a mudança de conduta em relação ao ato de comer, como também ao positivamento de seu estado físico e psicológico.

Procedemos já no início da primeira sessão a tomada das medidas de peso e altura de Ana, obtendo os seguintes resultados: altura = 1,60 m e peso = 68 Kg. Na conversão dos valores para o IMC, obtivemos o resultado de IMC = 26,6, o que indica, segundo a tabela a seguir, uma caracterização de sobrepeso. (O IMC é obtido pela divisão do peso em quilos pela altura ao quadrado (expressa em metros). Podemos classificar o peso em categorias, de acordo com o IMC.)

CATEGORIA

IMC

variação aceitável

20 - 25

excesso de peso

25 - 30

obesidade

30 - 40

obesidade extrema

maior 40

Ao observar a tabela Ana sorri e comenta que se sentia melhor por não estar classificada na outra categoria, referindo-se a ao índice de obesidade da tabela.

Ana mostrou-se mais ansiosa do que a primeira vez em que veio ao consultório, fato observado por ela mesma. Disse que antes de sair de casa havia comido, sozinha, um pacote de biscoitos e uma barra chocolate, por sentir-se bastante ansiosa. Contou que seu marido e seus filhos apoiaram sua decisão de participar de nossa pesquisa e mostraram-se curiosos quanto ao transe hipnótico. Prometeu-lhes contar toda a experiência na intenção de satisfazer-lhes a curiosidade.

Propusemos a técnica de levitação braquial de Erickson (Anexo II) sugerindo um transe profundo, correspondido por Ana. Nas sessões subseqüentes os transes foram conseguidos apenas pela evocação do signo-sinal.

Através de uma comunicação metafórica, realizamos sugestões específicas como a aprendizagem do auto-relaxamento (como fator diminuidor de ansiedade), crescente autocontrole, encorajamento da pratica de exercícios físicos, fortalecimento de auto-estima e motivação (Anexo II).

Ana mostrava-se mais motivada a cada nova sessão, não somente pelos apontamentos da balança, mas especialmente pelo estado de serenidade que vinha apresentando. Disse que os filhos e o marido também observaram o seu estado de espírito positivo.

As pesagens em princípio não mostraram grandes alterações embora Ana dava informações importantes sobre a mudança de sua conduta em relação aos alimentos e ao ato de comer. Contou-nos que surpreendeu-se consigo mesma quando comeu apenas a metade de um quindim que o marido lhe trouxera, informando ser esse o doce que mais gosta. Disse que havia jantado e que sobras ficaram no prato, fato até então incomum, mesmo nos tempos em que se sentia magra:  “...apenas olhava para a comida e sentia que o que já havia comido me bastava, e repentinamente me veio a lembrança de  quando minha mãe dizia que devemos comer toda a comida porque é preciso valorizar as mãos que plantam o alimento, as mãos do lavrador. Pude entender naquele momento porque relutava antes em deixar sobras, fato vivenciado no momento atual de forma tranqüila e sem culpas, com uma profunda mudança de significados...”.

2.4. Análise de Resultados

As otimistas manifestações verbais de Ana mais a observação das pesagens nas sessões subsequentes, demonstraram as transformações obtidas. Sua motivação na observação dos resultados foram utilizada nas sugestões posteriores como um estímulo adicional.

As pesagens foram anotadas a cada sessão conforme demonstramos na tabela abaixo:

DATA

SESSÃO

ALTURA

PESO

IMC

05/06/2000-seg

1

1,60 mts

68,000 kg

26,6

06/06/2000-ter

2

 

68,100 kg

26,7

07/06/2000-qua

3

 

67,600 kg

26,4

08/06/2000-qui

4

 

67,600 kg

26,4

09/06/2000-sex

5

 

67,500 kg

26.3

10/06/2000-sab

6

 

67,100 kg

26,2

11/06/2000-dom

-

-

-

-

12/06/2000-seg

7

 

67.300 kg

26,3

13/06/2000-ter

8

 

66,900 kg

26,1

14/06/2000-qua

9

 

67,000 kg

26,2

15/06/2000-qui

10

 

66,900 kg

26,1

21/06/2000-qua

11

 

65,700 kg

25,7

28/06/2000-qua

12

 

64,700 kg

25,3

05/07/2000-qua

13

 

64,000 kg

25,0

12/07/2000-qua

14

 

62,800 kg

24,6

19/07/2000-qua

15

 

62,100 kg

24,3

Os resultados apontados na tabela demonstram a evolução obtida durante todo o processo, onde a paciente conseguiu em 45 dias reduzir o seu peso em 5,900 kg. O Índice de Massa Corporal (IMC) para efeito de cálculos, foi arredondado por nós a partir da quarta casa, considerando os valores abaixo de 5, igual aos valores apontados na terceira casa, e os valores acima de 5 com o arredondamento para a casa seguinte.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu como sobrepeso valores de IMC acima de 25 Kg/m² , número ultrapassado por Ana em sua primeira consulta, quando o resultado de seu IMC indicou 26,6. Em sua última sessão, o IMC indicava 24,3, ficando portanto, na faixa aceitável (entre 20 – 25) na tabela de IMC.

Ana nos revelou as modificações de suas atitudes em relação ao ato de comer como um fato automático. Confessou na última sessão que tentara autotestar-se em relação aos doces. Tentou comer dois quindins, fato até então natural, mas sentiu que o fazia sob certo desconforto. Disse: “...é como se meu organismo passasse a funcionar de um modo preciso, identificando minhas reais necessidades de alimentação. Brinquei com esse  “poder interno” mas não pude vencê-lo. É como tomar água além do limite... não desce...”.

Pudemos através da análise dos resultados observar que a hipnose, especialmente para esta paciente, mostrou-se um instrumento eficaz no controle da ansiedade e na redução da massa corporal, ensejando a realização de pesquisas mais amplas em grupos maiores de sujeitos.

3. Bibliografias

Amaro, J. W. et al. (1979) Aspectos psicodinâmicos da obesidade. Revista de Endocrinologia, vol. 23 RJ

Badra, Álvaro. (1987) Hipnose em odontologia e odontologia psicossomática. Andrei Editora, São Paulo

Coué, Émilie. (1957) Auto sugestão Conciente –O que faço –Coleção Émilie Coué. Editora Minerva, 7a edição, Rio de Janeiro

Erickson, Milton, et al. (1961) Hipnose médica e odontológica –Aplicações práticas. Editora Psy, 2a edição, São Paulo, 1998

Fajardo, Francisco. (1896). Tratado de Hypnotismo. Laemmert & Comp. Editores, Rio de Janeiro –São Paulo

Fonseca, J. Álvaro. (1998) Hipnose no tratamento de pacientes com ansiedade. Tese de mestrado, UMESP, São Paulo

Gasparini, Sandra R. S. (2000) Obesidade: como classificá-la? Homepage: URL http:// www.nib.unicamp.br/svol/artobes.htm, São Paulo, Brasil

Martins, D. F. G. (1986) Aspectos psicodinâmicos associados à obesidade: um estudo comparativo de dois grupos com o TAT e o Rosenzweig, Tese de mestrado, IMS, São Paulo

Organização Mundial da Saúde –OMS. (1995) Overweight adults. in: physical status. WHO techinical Report, Genebra

Paiva, L. M. (1966) Medicina Psicossomática. Livraria e Editora Artes Médicas, Porto Alegre, RGS

Sichieri, Rosely. et al. (1993) Redução de peso com dieta de baixo teor de gordura baseada em arroz e feijão. Arquiv. Bras. Endocrinologia, vol. 37, n. 3

Sichieri, Rosely. (1998) Epidemiologia da obesidade –Coleção Saúde & Sociedade. EDUERJ, Rio de Janeiro

Spielberg, C. (1981) Tensão e ansiedade. Editora Harper & Row do Brasil Ltda, São Paulo

Anexo I - Teste de Susceptibilidade de Entrecruzamento das Mãos 

Anexo II – Procedimento de Levitação de Braço

Anexo III - Escala de Aprofundamento Hipnótico


[1] Centro Latino Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde

[2] sujeito hipnotizável